Defender o “faça o que você ama” já me fez uma idiota

02 de Maio , 2018

Já há alguns anos uma nova ideologia, ecoada dos EUA, a maior economia capitalista do planeta, vem tomando conta do imaginário social em nível mundial e encontrou morada no Brasil. Eu me refiro ao mantra: ‘”trabalhe no que você ama”. Você que está lendo este texto com certeza já ouviu ou proferiu esta frase propagada e na maioria das vezes referida à autoria de Confúcio: “faça o que ama e não terá de trabalhar nenhum dia de sua vida”.

Essa frase também se revitalizou, ganhou fama e tornou-se contemporânea a partir do falecido Steve Jobs, Fundador e CEO da Apple, que em 2005 disse em um famoso discurso que proferiu na Universidade de Stanford: “você tem que encontrar o que ama...a única maneira de fazer um ótimo trabalho é amando o que faz”. Será mesmo a única? Eu, por algum tempo também acreditei e repeti isso, talvez como muitos de vocês, sem refletir sobre o que verdadeiramente isso significa e o quanto essa crença pode ser permeada de egoísmo e ilusão, retratando uma infeliz característica da nossa sociedade, a autossuficiência e o individualismo. Quando eu acreditava e disseminava essa frase, em algum momento da minha carreira, eu fazia isso por acreditar que viria dela a fórmula do sucesso e da felicidade profissional. Só que o que eu não percebia, era o quanto ela é nociva, simplista e serve a interesses de uma camada social.

Aqui no Brasil, percebo a disseminação dela para atender aos interesse de gurus, marqueteiros de carteirinha, que a adotam como isca para vender seus cursos, processos de coaching, livros, palestras, enfim, um discurso que está a serviço da estratégia de ter a dor para oferecer o analgésico.

Não há problemas em oferecer analgésicos para dores, mas o problema de cunho ético está quando esta dor é construída tijolo a tijolo, estrategicamente pensada, para provocar em alguém um desconforto que o fará acreditar que verdadeiramente tem algo de muito errado com ele, nesse caso gerado pela culpa provocada pela sensação de não estar fazendo o que ama. Mas será que realmente existe como todo o trabalhador desse mundo só será feliz se fizer o que ama? Não seria egoísta eu pensar que essa é a única receita do sucesso, enquanto tem tanta gente precisando fazer tantos tipos de trabalho por necessidade (pessoal e social), pela lei da oferta e procura, oportunidades, característica local ou momento de vida? É disso que eu me refiro quando falo que a ideologia é egoísta, pois generalizar um conceito, através da repetição de um mantra, sem analisar o contexto que está inserido é, no mínimo, egoísta. Separar trabalhadores em duas classes, os que conseguem fazer o que amam, e os que não conseguem, sentenciando a segunda classe à infelicidade e ao desprazer por “trabalhar de verdade”, já que os outros não trabalham né?

Eu fico pensando, será que reduzir a felicidade profissional apenas ao amor pelo que se faz não seria liberar a empresa, o líder, a equipe, o sistema, as leis, o negócio, o cliente de toda a construção do bem estar e da realização no trabalho? Essa crença está a serviço de reduzir ainda mais o ser humano a um ser individual, autossuficiente e único culpado ou responsável pela sua (in)felicidade. Ela ignora a importância das relações, do reconhecimento, das condições de trabalho, dos princípios/valores supridos, das necessidades socioemocionais, relacionadas à remuneração, da possibilidade de fazer parte de algo maior, da sensação de utilidade e dignidade, do acesso a novas possibilidades de vida, e outros tantos aspectos que o trabalho toca.

Sim, eu acredito que nós somos os principais responsáveis pela nossa felicidade, mas nós estamos dentro de um sistema, e não podemos deixar que a vaidade e a prepotência do “sim, eu posso” ignore as interferências e mascare a co-responsabilidade de outros fatores nesse processo.  

Eu, hoje afirmo que esse mantra provoca mais estragos que contribuições, pois recebo muitas pessoas para atendimento que sentem um desconforto enorme por não terem certeza que amam o que fazem, sendo que o que elas realmente precisam primeiro é entender o que significa realização e felicidade profissional para elas, e isso passa por aspectos bem mais amplos que somente o “amor pelo que faz”. Sim, talvez você precise de ajuda para ser mais feliz e realizado no que faz, mas há grandes chances de não ser somente porque você não ama seu trabalho. 

Trabalhar pressupõe esforço, e todo o esforço é desconfortável, acreditar que o desconforto tem relação apenas com falta de amor, ou com o (des)encontro com a vocação, é uma resposta simplista a um assunto complexo. Acreditar que apenas amando seu trabalho se tem a fórmula para a felicidade profissional e sucesso, diz muito de uma geração que foge da dor e não tem pré-disposição emocional para suportar que ainda precisamos trabalhar no sentido literal da palavra, e que não há nenhum mal nisso.

Deixe de acreditar que só o amor pelo que você faz o tornará um profissional realizado, abra os olhos se alguém lhe disser isso quando você estiver desanimado(a). Acreditar que só o amor é o responsável pela sua (in)felicidade profissional hoje faz você desconsiderar as diversas outras razões que o fazem um trabalhador competente e realizado. Pensando assim, você abrirá as portas para entender quem de fato é o seu “eu trabalhador” para se permitir conhecer e entender que seu trabalho pode ser fonte de grandes satisfações, não apenas pela natureza da tarefa, mas pelos inúmeros outros aspectos que nele estão contidos.

Conscientizar-se que você pode ter um trabalho prazeroso sem ter que amá-lo o tempo todo, estabelecerá limites sobre quem você é o que você faz, lhe tirará do mundo encantado de uma geração que não suporta sofrer, sem lhe tirar a possibilidade de ser pleno e excelente na sua entrega.

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