Precisamos aprender a dividir com o novo pai o protagonismo familiar

16 de Agosto , 2018

Mês dos pais, passadas as importantes homenagens, peço licença para falar às mulheres, sobre o novo pai, as mudanças na família e a parte que nos toca.

Há alguns anos, certa tarde eu estava trabalhando, em uma cidade que fica uns 50km de onde resido. Meu celular tocou, mas não ouvi, pois estava em uma reunião. Logo que vi, retornei e a ligação era da escola do meu filho, que na época tinha 3 anos. O motivo da chamada era porque ele havia caído e machucado, talvez a notícia que os pais mais temam quando se trata de sair pra trabalhar e deixar o filho aos cuidados de outra pessoa ou da escola. Falaram que como eu não havia atendido, eles logo ligaram para o meu marido, o pai do meu filho. A situação já estava encaminhada, ele já havia corrido até o pronto socorro e o pequeno já estava atendido e medicado. Alguns segundos após, o meu marido ligou e me contou o que tinha acontecido. Apesar do susto, estava tudo bem, inclusive eles já estavam em casa. Ele disse que eu poderia ficar tranquila e que não haveria necessidade de voltar. Porém, ao desligar, pensamentos deste tipo me inundaram: Devo ir para casa, ver tudo com meus próprios olhos?  Corro para lá ou fico aqui? Eu como mãe não deveria estar obrigatoriamente perto quando uma coisa dessas acontecesse? Fiquei angustiada, sem saber o que fazer, se ia ou não ia ao encontro do meu filho. Em seguida também pensei: mas e os compromissos que me esperam na outra sala? O que justificaria a minha ida? Ah! Seria o fato de eu ser “a mãe”? Pois o que uma boa mãe faria naquele momento?  Mas ele estava com o pai, então por que eu precisaria ir às pressas? O que você faria no meu lugar? 

Essa história é verídica e foi marcante pra mim. Ela aconteceu quando eu estava em crise (mas não sabia), ao viver minha primeira experiência como mãe, trabalhando, fazendo mestrado e sofrendo com a estafa que me assolava. Sempre questionando-me como outras mulheres faziam para dar conta da busca pela realização profissional, quando ao mesmo a mulher ainda precisa se responsabilizar tão majoritariamente pela casa, filhos e todas (que são muitas!) as obrigações e demandas (físicas e psicológicas) provenientes desses papeis.

O fato de muitas mulheres viverem isso quietas, aceitando como uma condição inquestionável os seus companheiros assumirem o papel de “ajudante de mãe”, me indignava muito. Eu me perguntava: será que a sociedade ainda não percebeu o quão isso é cruel com a mulher? Eu achava, no mínimo, injusto, pois por mais argumentos e justificativas que procurasse, menos eu considerava coerente essa realidade, que sacrifica mulheres nessa dupla e cansativa jornada, enquanto eles só precisam trabalhar e AJUDAR, em um papel de executor do que a gente manda. Muitas vezes, o pouco que fazem é motivo de honrarias, enquanto nós, estamos sempre na dívida. E isso que eu já tinha ao meu lado, um marido que se esforçava ao máximo para participar ativamente dos cuidados com nosso filho e com a casa. Porém, a responsável ainda era eu, ele era um “ajudante 10”, diríamos assim, mais ainda quem pensava, planejava, lembrava e controlava tudo que envolvia a casa e nosso filho, acabava sempre tendo que ser somente eu.

Minha motivação para escrever este texto é porque sei que muitas que o lerão, vivem essa realidade e nem percebem ou não conseguem mudar. Deixaram de aproveitar ou acreditar em oportunidades ótimas na carreira, ou então sofrem muito de cansaço e estresse com esse verdadeiro turbilhão de obrigações, sem questionar (a eles e a si próprias). Muitas vezes as mulheres alegam ser a educação recebida pelo homem e a própria cultura, as responsáveis por essa realidade. Sim, não discordo das causas, mas será que estamos agindo para mudar as consequências?

Para aliviar um pouquinho a tua barra, vou te lembrar o porquê nós reproduzimos um modelo antigo, sem perceber. Vivemos em uma cultura que por conveniência, há séculos colocou a mãe como a personagem principal na família, realmente a “dona” do lar. Ela quem comandava, a soberana quando o assunto eram tarefas domésticas e cuidado com os filhos, os pais mal sabiam detalhes da rotina das crianças como o nome da professora, comida preferida, necessidades práticas como calendário de vacinação, dia da consulta no pediatra ou simplesmente a compra do presente de aniversário no final de semana, essa era uma função exclusivamente feminina, afinal esta era a fonte de realização  e ocupação feminina.

No entanto, a entrada da mulher no mundo do trabalho já não é novidade, mas essa cultura não se atualizou na velocidade que precisava. Seria tão bom dar um F5 e atualizar tudo, mas infelizmente não é assim que funciona. A mudança cultural demora, e nesse caso, essa demora de décadas, tem custado sofrimento e esgotamento feminino. Claro, eu sei que temos evoluído muito, e os homens estão bem mais ativos e participativos do que eram há 20 ou 30 anos (ainda bem). Mesmo assim, chamo a reflexão pois percebo que ainda temos uma caminhada dentro das nossas casas, e que o nosso papel, enquanto mulheres, no processo de aceleração da mudança, é o de começar mudando a nossa mentalidade quando o assunto é o protagonismo do lar. Sabe essa cultura que acabei de descrever? É ela que nos coloca culpa e nos coloca a repetir padrões que geram culpa, quando o assunto é o nosso “papel de mulher”.

Porém, em tudo na vida temos 1/3 de responsabilidade, e é desse pedacinho que eu escrevo, é dos nossos 100% dessa terceira parte.

Meninas, não são somente os homens que precisam mudar, nós também temos. Precisamos aceitar que se quisermos mostrar nosso valor para além de casa, precisaremos bancar que em casa, teremos que dividir o protagonismo também. Saliento, que não sou adepta a corrente que faz apologia a igualdade de papeis entre homens e mulheres, eu acredito verdadeiramente que cada um tem o seu valor, e que a mulher não deve se masculinizar para conquistar seus direitos (esses sim devem ser iguais). Por isso quando falo em divisão, falo em amenizar o fardo, em estimular o companheiro a alternar, de forma mais justa, e não em transferir ou trocar, pois contrariando o raciocínio matemático, essa divisão serve para somar. Somar o nosso poder lá fora, dividindo o poder com eles dentro de casa.

Só que para isso acontecer, é necessário um trabalho emocional feminino importante. Precisamos nos desapegar da soberania doméstica e permitir compartilhar o papel principal, incentivando e dando espaço aos pais para que sejam, emocionalmente e funcionalmente, tão necessários e importantes na vida/rotina de nossos filhos e na dinâmica familiar. Mas, para isso acontecer, precisamos descentralizar poder e razão, liberar o trono, confiar em nossos parceiros e acreditar que mesmo fazendo diferente, do jeitão deles, eles vão fazer, e que neste jogo de erra e aprende, eles também vão aprender, assim como nós aprendemos. E que ainda, em algumas coisas eles poderão vir a ser melhores do que nós, e precisaremos engolir.

Para algumas mulheres, reconhecer e ajudar a construir essa realidade pode ser um enorme desafio, já que, mesmo que já sejamos de uma geração de filhas de mães que trabalham, também fomos educadas para cuidar, zelar, e sermos mesmo as únicas “donas” da casa, assim como elas foram, assim como nos ensinaram a fazer com as nossas casinhas e bonecas, enquanto os meninos brincavam na rua ou de carrinho. No entanto, a carga mental de fazer gestão do lar em tempo integral, pode estar te levando à beira de um ataque de nervos.

A mudança passa pela aceitação de que dividir este papel com nossos companheiros não nos faz menores ou piores do que as nossas mães ou avós foram, mas sim, nos faz diferentes, nos faz a nova mulher que permite e vive junto o nascimento de novos homens, diante de novos papeis. Inclusive acredito que a palavra-chave de uma mulher que conciliar o sucesso fora e dentro da família, seja a palavra “dividir”. Di-vi-dir e não “delegar”, pois delegar pressupõe repassar temporariamente atribuições as quais nós somos as responsáveis, e “dividir” pressupõe igualdade e compartilhamento de responsabilidades, alternando-as com bom senso, sem subtrair em carinho e afeto. Para isso, precisamos deixar a ânsia de controlar tudo sempre, de estar presente em tudo, escoradas em um discurso defensivo de que “ele não saberá fazer”. Precisamos tomar cuidado para não subestimar a competência masculina de cuidar de um filho, e admitir que, por vezes, a presença do pai será suficiente para a criança, sem que isso nos torne menos importantes na vida deles ou coloque em xeque o amor e o vínculo construídos nesta relação.

Nós somos fundamentais no processo de empoderar um homem a ser pai, com todo o sentido desse termo. No entanto, algumas vezes, a autossuficiência materna, gerada por aspectos emocionais (insegurança, vaidade...) e sociais (só a mãe é que sabe) cria um ciclo de dependência de toda a família com a mãe, o que favorece o seu próprio esgotamento que impossibilita a dedicação para além do básico e trivial na carreira, gerando um ciclo de frustração, cansaço e sensação de injustiça.

Foi então, que naquela tarde, retornei à sala ao lado, respirei fundo e resolvi deixar nosso filho aos cuidados do PAI, afinal, se eu não queria que ele fosse só meu ajudante, não poderia lhe tratar como tal.

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